“Bloqueio” no tempo para o início de março: estas serão as consequências na chuva e temperatura em Portugal

Março vai começar com um jato polar muito ondulante na nossa latitude, o que produzirá uma situação de bloqueio sobre as Ilhas Britânicas. Saiba como isto afetará o tempo em Portugal para os próximos dias.

Até há poucos dias, a dinâmica atmosférica era bastante evidente, com fluxos de Oeste a dominar no nosso país.

Todas as frentes que a Meteored tem vindo a monitorizar tinham em comum o facto de entrarem pela faixa costeira ocidental de Portugal continental e pela Galiza, varrendo o nosso território de noroeste para sudeste e descrevendo a clássica trajetória das frentes atlânticas invernais.

A precipitação convectiva (aguaceiros, trovoada e granizo) será a 'tónica dominante' dos próximos dias em Portugal continental, sobretudo nas regiões localizadas a sul do rio Tejo.

Esta situação sinóptica alterou-se nos últimos dias e tudo indica que irá manter-se para os primeiros dias de março devido às ondulações que o jato polar apresentará.

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O jato polar fluirá com ondulações significativas, sendo favorável à formação de um padrão de bloqueio em redor das Ilhas Britânicas.

Estas ondulações irão gerar altos e baixos na temperatura, permitindo a aproximação de várias bolsas de ar frio (ou áreas de baixa pressão isoladas) à nossa latitude.

O que é o padrão de bloqueio e que efeitos terá na nossa geografia?

A atmosfera é um sistema dinâmico e as “peças” que regem os estados de tempo são mutáveis. Neste caso, a aproximação de uma depressão isolada em altitude (ou gota fria) ao nosso país será favorável à subida em latitude de um anticiclone que se disporá em crista até às Ilhas Britânicas.

Tudo indica que a situação de bloqueio não será muito persistente, uma vez que se vislumbra o domínio do padrão NAO+ na primeira quinzena de março.

Este cenário resultará na chamada situação de bloqueio, que ocorre basicamente quando um anticiclone se localiza em torno das Ilhas Britânicas ou da Escandinávia. Como o próprio nome indica, esta situação impede (ou bloqueia) a chegada de depressões cavadas formadas no Atlântico. Porém, algumas pequenas baixas, vales depressionários ou até mesmo gotas frias conseguem, por vezes, deslocar-se ao longo do flanco sul do anticiclone.

O padrão que acaba de ser descrito é capaz de provocar, com bastante frequência, uma inversão da circulação atmosférica (leste-oeste), com o vento dominante passando a soprar do quadrante Leste.

Deste modo, estes panoramas podem trazer alguns benefícios para as regiões habitualmente mais castigadas pela seca e cronicamente afetadas pela falta de água nos campos agrícolas, barragens e albufeiras, nomeadamente para as mais meridionais - como os distritos de Portalegre, Évora, Beja, Setúbal e Faro - se forem acompanhadas de instabilidade nas camadas médias-altas (aguaceiros e trovoada).

A distribuição da precipitação mantém-se muito incerta para os próximos dias, mas tudo sugere que o Alentejo litoral, o Baixo Alentejo e o Algarve sejam as regiões mais regadas pela iminente gota fria.

As últimas previsões do modelo de referência da Meteored revelam que este padrão de bloqueio não será particularmente robusto, uma vez que ao longo da primeira quinzena de março deverá prevalecer uma situação de NAO+, o que se traduzirá na deslocação de tempestades muito cavadas através do Atlântico e na possibilidade de chegada de ar frio a Portugal continental. Esta projeção ainda terá de ser confirmada nos próximos dias.

Chuva localmente forte no Alentejo Litoral, Baixo Alentejo e Algarve nos primeiros dias de março

A gota fria que chegará a partir desta quinta-feira (27), à medida que se for deslocando lentamente para sudeste, deixará chuva, por vezes forte e localmente acompanhada de trovoada, em várias regiões do país, sobretudo nas que se situam a sul do rio Tejo. No sábado, 1 de março, o vento de Es-Nordeste será o protagonista de norte a sul de Portugal continental, por causa da consolidação das altas pressões sobre as Ilhas Britânicas, gerado pelo referido bloqueio.

Prevê-se que os primeiros dias de março sejam mais frios do que o normal. Nalguns locais de Portugal continental, ao meio-dia do próximo domingo dia 2, as temperaturas estarão até 5 ºC abaixo da média climática de referência.

Com este cenário, a chuva poderá ser particularmente forte nalgumas zonas do Baixo Alentejo e do Algarve, com destaque para o Sotavento Algarvio, isto é, a metade oriental do distrito de Faro - uma das zonas do Sul de Portugal continental que potencialmente acumulará mais milímetros de precipitação nestes próximos dias.

A precipitação poderá ser igualmente forte e abundante noutras zonas do Alentejo Litoral e Baixo Alentejo - precisamente algumas das que mais água necessitam - com acumulações a poder rondar os 30 a 55 mm durante este episódio adverso entre sexta (28) e sábado (1), nas localidades de Alcácer do Sal, Grândola, Ferreira do Alentejo e Aljustrel (distritos de Setúbal e Beja).

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Apesar das áreas mais propensas à chuva e aguaceiros serem as acima mencionadas, ainda não é claro exatamente onde a depressão isolada em altitude terá um maior impacto, dado que ainda estamos a cerca de 48/72 horas para que esta situação ocorra e algumas baixas secundárias poderão formar-se à superfície, reflexo do ar frio em altitude.

Descida generalizada das temperaturas e possibilidade de queda de neve acima dos 1500 m de altitude

Embora a precipitação seja a principal característica do iminente episódio de tempo instável, vale a pena realçar também a descida das temperaturas provocada por esta situação sinóptica. Neste fim de semana de Carnaval, as temperaturas mínimas irão baixar para os 5 ºC ou menos em várias cidades do litoral Norte e Centro, esperando-se valores iguais ou inferiores a 0 ºC no Nordeste Transmontano e na Beira Alta.

A neve acumulada até às últimas horas de domingo, 2 de março, rondará os 3 cm na Serra da Estrela.

No interior Norte e Centro - correspondente às regiões mais frias do país e aos distritos de Vila Real, Viseu, Bragança e Guarda - as temperaturas máximas oscilarão entre 8 e 14 ºC ao longo deste fim de semana. Deste modo, é expectável que a anomalia térmica negativa seja muito significativa.

Quanto às cotas de neve, é possível que ocorra queda de neve acima dos 1400/1500 metros de altitude nas serras do extremo norte e na Serra da Estrela, mas apenas deverá acumular - ainda que de maneira residual - na maior montanha de Portugal continental (3 cm previstos para a Serra da Estrela até às últimas horas de domingo, 2 de março).