Neve-rosa ou de melancia: o que origina este fenómeno surpreendente, que já é conhecido desde a época de Aristóteles?

Em certas zonas montanhosas, a neve adquire uma tonalidade rosada impressionante, cujas causas têm sido especuladas ao longo da história. Conheça um dos fenómenos meteorológicos que mais tem fascinado a curiosidade humana ao longo dos séculos.

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A primeira referência histórica conhecida à neve melancia data de 300 a.C quando Aristóteles se referiu aos "vermes peludos vermelhos".

Em determinadas áreas de montanha, a neve obtém uma tonalidade rosada formidável, cujas causas têm sido especuladas ao longo da história. Neste artigo analisaremos o que diversos intelectuais e cientistas foram pensando acerca das origens deste fenómeno meteorológico.

As referências ao longo da História à neve cor-de-rosa, ou de melancia

Encontramos as primeiras referências à neve-rosa ou neve-melancia no século IV a.C., por Aristóteles. Aquele que se acredita ser o registo mais antigo, datado de 300 a.C., surge quando Aristóteles tomou nota do fenómeno e acreditou que a neve era obra de “vermes peludos vermelhos”.

Entretanto, os alpinistas e naturalistas de diferentes épocas que a encontraram foram apresentando diferentes teorias sobre a origem do misterioso pigmento cor-de-rosa. Alguns pensadores, teóricos e cientistas pensavam tratar-se de uma espécie de sumo resultante da oxidação das rochas sobre as quais a neve se tinha depositado.

Em 1778, o geólogo suíço e pai do alpinismo Horace-Bénédict de Saussure (1740-1799), numa das suas escaladas aos Alpes, encontrou neve cor-de-rosa e especulou que o corante se devia a um fungo.

Em pleno século XIX, já decorria o ano de 1818, a primeira vez em que a Humanidade dá conta da sua ocorrência no Ártico acontece quando o capitão John Ross decidiu seguir o rasto da neve melancia, com quatro navios ingleses enviados para o Círculo Polar Ártico para a primeira expedição à Passagem do Noroeste.

neve melancia
Este fenómeno não é exclusivo do Ártico e dos Alpes, tendo também sido registado noutras áreas geográficas do globo, tais como o Noroeste da América do Norte, o Monte Olimpo na Grécia, a Nova Zelândia e a Antártida.

Há várias causas, de naturezas diferentes, capazes de conferir à neve esta cor exótica

A iluminação que a neve pode receber do céu é uma das causas para a sua tonalidade rosada. Em certos momentos do crepúsculo - antes do nascer do sol e após o pôr do sol - a atmosfera adquire uma cor rosada, que se reflete na neve sobre o solo.

Noutros momentos, o que acontece é que os flocos de neve ou as gotas de chuva formados na presença de poeiras, ao incorporarem partículas sólidas avermelhadas (geralmente poeiras provenientes de desertos, como por exemplo o do Saara) e ao precipitarem sobre um manto de neve impecavelmente branco, mancham-no com vestígios cor-de-rosa ou avermelhado.

Mas a chamada “neve-melancia” (watermelon snow, em inglês) - cuja designação se deve ao facto de apresentar um aspeto semelhante ao da polpa da melancia - tem uma causa muito diferente. De facto, Saussure não estava muito longe da verdade, pois algumas décadas mais tarde, no século XIX, esta pigmentação peculiar foi associada à presença de uma alga microscópica chamada Chlamydomonas nivalis.

Da importância do pigmento vermelho para as algas à ameaça para o futuro dos glaciares

Atualmente, sabe-se que mais de 350 tipos de algas são capazes de se desenvolver em água congelada (neve e glaciares) e de resistir às condições meteorológicas adversas da alta montanha. Durante a estação do inverno, de frio intenso e pouca luminosidade, - estas algas vermelhas permanecem dormentes, sem atividade, mas com a chegada da primavera despertam e as colónias de Chlamydomonas nivalis começam a expandir-se rapidamente.

A sua cor chamativa deve-se a uma substância chamada astaxantina, que está contida no invólucro gelatinoso que as envolve. Este pigmento vermelho protege-as das perigosas radiações UV (ultravioletas) e é responsável por tornar a neve cor-de-rosa.

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A neve pressionada ao longo do tempo e as pegadas deixadas pelos alpinistas contribuem para o aparecimento da cor rosada na neve.

A cor rosada não aparece na neve recém-caída, mas requer um esmagamento da neve, como ocorre nos campos de neve - lugares de alta montanha onde a neve permanece durante o ano inteiro - onde a neve é pressionada ao longo do tempo, ou nas pegadas deixadas pelos alpinistas.

Em 2017, investigadores da Universidade do Alasca descobriram pela primeira vez como estas algas, ao obscurecerem a superfície de alguns glaciares, contribuem para acelerar o seu degelo, com a consequente perda de gelo e contribuição para a subida do nível do mar.

À medida que o glaciar fica cor-de-rosa, torna-se muito mais propenso a derreter, uma vez que as algas coloridas fazem com que a luz solar seja absorvida em vez de refletida, aquecendo o gelo circundante. É importante notar que este mecanismo não tinha sido tido em conta nos modelos climáticos até há poucos anos atrás.

Acrescente-se ainda que, no que toca à geografia, este fenómeno não é exclusivo do Ártico nem dos Alpes, podendo também ser encontrado no Noroeste da América do Norte, na Nova Zelândia, no Monte Olimpo (Grécia) e na Antártida.

Referências da notícia

Engstrom C., Quarmby L. Satellite mapping of red snow on North American glaciers. Science Advances. (2023).

Selcho, Madison. Aristotle knew back in 300 B.C. what ‘watermelon snow’ was and now Utah mountains are experiencing it. Deseret News. (30/06/2023).

Viñas, José Miguel. Conocer la Meteorología - Diccionario Ilustrado del Tiempo y el Clima. Alianza editorial. (2019).